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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Turismo e sustentabilidade: como beber desta fonte harmonizando benefícios

 
Por Rogerio Ruschel (*)

Turismo sustentável é aquele no qual todas as partes envolvidas saem ganhando: o turista vivencia uma experiência única em contato com culturas e ambientes novos; o local visitado se beneficia sociológica e economicamente ao ser conhecido e divulgado para além de suas fronteiras (e somente se respeita aquilo que se conhece); e a economica local (comunidades, poder público e pequenas empresas) se beneficia com novos negócios gerados pelo turismo. E o turismo, como se sabe, movimenta negócios em mais de 50 atividades diferentes. Todo tipo de turismo deveria ser sustentável, mas infelizmente não o é. E o turismo mais sustentável é aquele praticado em centros urbanos, com indicadores socioambientais positivos e também aquele realizado em contato próximo da natureza como as variações do eco-turismo, turismo de aventura e turismo rural.
  
Nos Andes

Pratico eco-turismo e procuro fazer turismo sustentável desde adolescente. Fui turista em parques públicos e privados na África do Sul (veja posts neste blog), Nova Zelândia e nos Estados Unidos no Yosemite Park, o primeiro parque nacional do mundo, criado em 1890 – onde conheci um programa que ensinava cegos a fotografar entre as mais de 40 atividades eco-turísticas. Estive em Galápagos, onde o turismo é extremamente controlado e muito lucrativo. Caminhei pela região dos vulcões no Equador e em parques nacionais da Colombia e do Brasil. Fiz roteiros de eco-turismo na serra gaúcha, na Amazônia, em Lençois Maranhenses-MA e em Bonito-MS, entre outras regiões do Brasil. Me hospedei em fazendas de turismo rural no Paraná e na Sicilia, onde ajudei a fabricar azeite e estocar vinhos. Experiências encantadoras.


Com turismo sustentável os animais não tem medo dos visitantes, como em Galápagos

Mais do que praticar, tenho investido tempo e dedicação na divulgação e valorização do conceito win-win do turismo sustentável no Brasil. Fiz a primeira pesquisa sobre o perfil profissional do ecoturismo no Brasil, em 1994, em parceria com o WWF, a ONG do ursinho panda. Organizei eventos de ecoturismo em São Paulo e Canela nos anos 90; ajudei a fundar o IEB, hoje Instituto Peabiru; prestei consultoria para investidores privados e poder público - para os governos do Ceará e Tocantins e para o convênio Prodetur, parceria da Embratur com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), nos anos 2000 com o objetivo de valorizar aspectos ambientais e culturais em atrações turísticas. E durante uns 4 anos representei no Brasil o CEFAT - Centro Europeo de Formación Ambiental y Turística, ONG fomentada pela Comunidade Econômica Européia para desenvolvimento do turismo rural.
Tumba Canari: um mini Machu-Pichu nos Andes equatorianos

E nas dezenas de artigos e reportagens que escrevi sobre turismo sustentável, sempre procurei demonstrar que esta é uma atividade extraordinária porque pode promover deenvolvimento sustentável em todas as suas dimensões, inclusive a econômica. Com isso quero dizer que acredito piamente no valor que o turismo pode gerar para a preservação ambiental e cultural.
 A palavra de um especialista internacional
Oliver Hillel é um dos mais respeitados especialistas em turismo sustentável do mundo. É brasileiro, um brasileiro de muito talento, atualmente morando no Canadá. Tive a oportunidade de conviver com ele no Brasil, quando no começo dos anos 90 criamos ou participamos dos primeiros eventos de ecoturismo no Brasil em Canela, Ilhéus e Iguape.
Oliver Hillel (de terno cinza, ao meu lado, de camisa verde) e amigos do Senac
A convite do Oliver, em 1994, ao lado de João Allievi, Rita Mendonça, Denis de Lima Silva, Waldir Joel de Andrade, Zysman Neiman, Maria Cecília Wey de Brito e outros pioneiros, acabei sendo um dos co-criadores do primeiro curso de Pós-Graduação sobre Turismo e Meio Ambiente do Brasil, na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do SENAC, em São Paulo. Oliver (abaixo), mentor do projeto, foi coordenador e professor e tive a honra de substituí-lo como coordenador do curso, além de continuar lecionando, quando ele saiu do Brasil em 1996, aceitando um convite para trabalhar na área de turismo sustentável da ONU, em Paris.



Lençois Maranhenses: macaquinhos agregam valor à experiência do turista   

Pois o Oliver está fazendo brilhante carreira internacional em organizações multilateriais; atualmente trabalha no Secretariado da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) – uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU) - onde promove globalmente o turismo como ferramenta para conservação. O turismo sustentável traz vários benefícios para o ecossistema, plantas, animais e geografia do destino (geralmente um Parque público), para as comunidades do entorno do destino, como grupos étnicos habitantes do ecosssistema ou comunidades e governos locais adjacentes, e para o turista, que volta para casa com marcas indeléveis de ter vivido uma aventura e experência que o aproximou da natureza e quebrou sua rotina de urbanóide. 


Cabana onde fiquei em um parque privado na África do Sul

Oliver Hillel defendeu mais uma vez estes benefícios como um dos palestrantes da 11ª reunião da Conferência das Partes da CDB (COP 11), realizada em Hyderabad, na India, entre 8 e 19 de outubro de 2012. Veja a seguir a tradução livre de sua apresentação feita pelo Instituto Semeia, e mais abaixo, veja como acessar a entrevista com ele.

Turismo rural na Sicilia: aprendi a fazer azeite de oliva - e a dar valor a esta atividade

Depoimento de Oliver Hillel na COP 11

Disse Oliver aos representantes de mais de 120 países: “Realisticamente, temos uma fração muito pequena dos recursos e da capacidade instalada para alcançar isso (meta da CDB, sobre áreas protegidas). Alguns países estão mais avançados, outros estão menos. Planos ambiciosos (para a conservação) demandam mais e mais recursos, enquanto as doações são cada vez menores. Então temos um problema com isso. Um problema sério."

"Por outro lado, depois de 20 anos trabalhando com turismo, posso dizer que alguns destes parques possuem todos os elementos para gerar MUITA receita a partir do turismo, além de oportunidades de negócios para comunidades locais e indígenas, para os públicos de interesse, e significado para cada vez mais pessoas, que passam a conhecer o parque. A biodiversidade só é protegida quando as pessoas sabem a respeito desta. Quando as pessoas não vão aos parques, elas têm menos motivação para protegê-los."

Turismo sustentável ensina respeito às culturas tradicionais

"Em minha experiência pessoal, o que acontece é que das 192 partes, países que fazem parte da Convenção, talvez 10, 15 deles descobriram formas para canalizar uma pequena parte dos recursos que vem das comunidades do entorno das áreas protegidas para o gerenciamento em benefício da própria área - seja pública, privada, da comunidade local e indígena, com a gestão da própria comunidade. A maioria da receita com turismo nunca é direcionada para a manutenção das áreas protegidas."

"Logo, o que estamos falando aqui é como nós podemos replicar experiências das concessões e parcerias de turismo que funcionam em todas as áreas protegidas. Infelizmente, por diversas razões, apenas poucos países descobriram como desenvolver modelos verdes institucional e legalmente, trazendo uma quantidade significativa de recursos em benefício da gestão de áreas protegidas. A IUCN vem explorando concessões de turismo por muitos anos. De fato, tem publicações importantes e novas que serão lançadas em breve sobre como fazer concessões de turismo."
 
A natureza é a moldura deste restaurante no roteiro do vinho em Paarl, África do Sul

"E aqui entra o Semeia, uma ONG inovadora e com a qual estamos muito satisfeitos por colaborar. Tomou para si a tarefa de descobrir bons exemplos, as lições aprendidas, e como podemos alavancar mais apoio do setor privado. Não é uma panaceia. Sabemos disto. Recebi um ótimo relatório da EQUATIONS, uma ONG local na Índia, sobre todas as falsidades e problemas de empresas dizendo que beneficiam as pessoas, mas que não fazem."
 
Medindo uma árvore gigantesca na Amazonia brasileira

"Desafiando cada um de vocês aqui, eu pessoalmente não tenho identificado um único país no mundo em que pelo menos uma área protegida não receba uma substancial parte do seu orçamento advindo do turismo. Turismo tem seus ciclos de geração de recursos. Claro que gestores de áreas protegidas preferem apoios financeiros estáveis, mas devem existir diversos mecanismos para levar o dinheiro de uma parte para outra. Mas eles existem e funcionam.”
 
Safari na África: roteiros naturais que preservam biomas e animais

Oliver Hillel considera que o Brasil “ainda está engatinhando” no uso de iniciativas pró-ativas no desenvolvimento do turismo em áreas protegidas como estratégia de preservação da biodiversidade. E lembra países onde podemos buscar referências para nos transformar: Quênia, África do Sul, Costa Rica, Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Botswana. 
Quanto vale esta experiência na savana africana?

E o vinho?

Posso garantir que o turismo sustentável bem feito traz um grande conjunto de benefícios, e ao contrário do que muitos pensam, não é coisa para “bicho-grilo”: em todos eles o turista é tratado com classe, e em todos eles o vinho é parte da experiência e das refeições, porque o vinho - um produto essencialmente natural - combina com natureza, aventura e qualidade de vida.


Navios oferecem conforto e qualidade aos visitantes de Galápagos - incluindo boas alternativas em vinhos

Este post é dedicado a Oliver Hillel, pelos seus mais de 25 anos dedicado à preservação das riquezas naturais. Um brinde a isso.

Você pode conferir a entrevista exclusiva que Oliver Hillel deu ao Semeia clicando aqui. Saiba mais sobre o Semeia em http://www.semeia.org.br
 
Até nos Andes o turismo sustentável pode gerar renda, emprego e preservação
Saiba mais sobre sustentabilidade:
Turismo e sustentabilidade: como beber desta fonte harmonizando benefícios - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/11/turismo-e-sustentabilidade-como-beber.html
Microvinhas: curso inovador na Espanha sobre vinicultura sustentável e de alta qualidade em minifúndios tem participação de especialista brasileiro - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/10/microvinhas-curso-inovador-na-espanha.html

Microvinhas: os benefícios de produzir vinhos que são eco, micro, top e show - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/11/oportunidades-e-dificuldades-para-o.html

MicroVinya: a revolução dos minifúndios sustentáveis de Alicante, Espanha, com vinhedos centenários recuperados e vinhos com poderosa identidade social - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/05/microvinya-revolucao-dos-minifundios.html

Coisa de chines: um mega hotel ecológico e futurista numa pedreira desativada - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/08/coisa-de-chines-um-mega-hotel-ecologico.html

Os impactos do Réchauffement de la Planète (a versão francesa do Aquecimento Global) no mundo do vinho - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/01/os-impactos-do-rechauffement-de-la.html

Jovens empreendedores espanhóis e portugueses fazem sucesso produzindo pranchas de surf com rolhas de cortiça recicladas - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/07/jovens-empreendedores-da-espanha.html

Fique esperto: saiba como a rolha de cortiça preserva os aromas do seu vinho e os recursos do nosso planeta - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/08/fique-esperto-saiba-como-rolha-de.html

Bird&Wine: degustar vinhos e observar aves, a inteligente proposta de enoturismo da Rota do Vinho Utiel-Requena, Espanha - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/02/bird-degustar-vinhos-e-observar-aves.html

Enoturismo inteligente na Andaluzia, Espanha, propõe “paternidade responsável” de vinhas com “sigue tu cepa” - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/09/enoturismo-inteligente-na-andaluzia.html

Associazione Vino Libero: um manifesto italiano pela produção de vinhos com identidade, honestidade e sustentabilidade - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/02/associazione-vino-libero-um-manifesto.html

(*) Rogério Ruschel é turista, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade. Ruschel acredita que sustentabilidade e turismo PRECISAM andar juntos.










segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Corrupção em Piazza Armerina? Mosaicos maravilhosos e uma tese maluca


Por Rogerio Ruschel (*)
Já estava há uns 20 dias viajando pela Sicília e depois de conhecer Taormina, Palermo, Segesta, Érice e Agrigento (veja posts publicados), achei que já tinha conhecido os melhores atrativos da Sicília. Mas o agente de viagens de Messina que estava me ajudando a montar os futuros roteiros turísticos, insistiu que eu devia conhecer Piazza Armerina. Então apontei meu Fiat Panda alugado para o centro da Sicília – e hoje sei que devo muito a esta dica do cara.
Piazza Armerina é uma cidade com uns 25.000 habitantes, na região central da Sicília (ou quase isso). Saindo de Catania é fácil de chegar de carro pela free-way A19 via Enna, ou por uma rodovia também muito boa, via Caltagirone: Piazza Armerina está entre estas duas cidades, uns 50 quilometros de cada uma. Recomendo o que me sugeriram: prefira o roteiro via Caltagirone, para poder se deliciar com a arquitetura, mas principalmente com as cerâmicas – veja mais adiante algumas fotos.
Fundada durante o dominio árabe, Piazza Armerina tem igrejas bonitas no centro histórico, as típicas ruelas interessantes e o Spinelli Castelo. É bonita, tem bons cafés e restaurantes e uma festa anual de eventos medievais – o Palio Normando, que, Segundo dizem, não é assim uma brastemp comparado com o badalado Palio de Siena, na Toscana. Mas a grande atração da cidade é mesmo o site arqueológico da vila romana, há alguns poucos quilometros da cidade. 

Achei que ia ver o de sempre: as tradicionais ruínas, desta vez com alguns mosaicos. Mas a tal vila romana - que se chama Villa del Casale - é veramente um espanto! Dizem que é uma das maiores habitações romanas do tipo “villa” sobreviventes, e com certeza é a maior coleção de cerâmicas romanas. Teria sido construída entre 330 e 360 ​​DC e  embora não se saiba por quem, o cara devia ser mais do que rico, um milionário excéntrico. 
A vila tem partes de paredes e portais ainda de pé, e a estrutura de receptivo aos turistas é bem feito – como de resto, em toda a Sicilia. Na área que atrai os turistas que se amontoam em passarelas (veja abaixo), estão cerca de 3.500 metros quadrados de mosaicos, a maioria nos pisos, mas também alguns murais.
Mais do que bonito, é molto bello, como dizem os italianos. Os mosaicos representam cenas da vida diária de um romano no século IV como festanças (orgias?), animais, atividades agrícolas, caça e outras coisas que os especialistas chamam de motivos do Norte Africano. 

Um dos conjuntos (veja abaixo) mostra mulheres vestidas em trajes de banho de duas peças malhando com halteres que me lembraram as fotos amareladas da minha avó na praia: mais um espanto!

Eu e você, como turistas, nos surpreendemos com a beleza das cerâmicas, mas os arqueólogos se espantam por causa dos temas dos painéis (com valor para estudos sociológicos) e principalmente por causa de sua inusitada localização: fica no interior da ilha e não no litoral, como a maior parte da herança histórica da Sicília.

Formulei uma tese, sem nenhum fundamento histórico, é claro: além de produzir vinho e azeite (que é o que tinha prá fazer naquela região), o proprietário devia estar no ramo de importação de animais da África para comer cristãos no Coliseu de Roma e queria uma vida discreta, fora das rotas tradicionais dos navios. Suspeito mesmo que ele usava sua mansão como alguns políticos brasileiros: para hospedar, paparicar e dar grandes festas para funcionários públicos corruptos do império romano!

Mas enfim, caro leitor, a Villa del Casale de Piazza Armorina é realmente um show – não dá pra visitar a Sicília sem conhecê-las. Saí de lá e fui jantar e dormir em Caltagirone, onde devorei massa com carne de porco selvagem tomando um vinho local, servido em jarra (excelente, é claro!) remoendo minha tese do milionário excêntrico corrupto.
No dia seguinte passei quase 5 horas visitando lojas e galerias de cerâmicas de Caltagirone, algumas das mais bonitas que vi na Europa.

E vendo aquelas peças maravilhosas inspiradas na arte dos séculos IV a VIII, me lembrei novamente de Piazza Armerina – o quão bela devia ter sido com jardins, fontes e escravas semi-nuas servindo vinhos em jarros para os convidados do milionário corrupto. Catzo: acho que nasci no tempo e no lugar errados!

Mas isso deve ser herança do inconsciente coletivo de brasileiro, não?
Este post é dedicado a Ana Maria Naccache, que me honra com sua leitura deste blog: ela tem os pés em Caraguatatuba, mas a cabeça nos melhores rincões do planeta. 


Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:



(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br - editor deste blog é turista inveterado, jornalista de ecoturismo e meio ambiente e consultor especializado em sustentabilidade. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias pesquisando roteiros turísticos.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As brumas mágicas da sedutora Érice, a cidade siciliana do amor


Por Rogério Ruschel (*)
 
A cidade de Érice, na Sicilia, só poderia ter sido fundada por um povo que cultuava Vênus, a deusa do amor dos romanos (Afrodite para os gregos). Explico: a povoação foi fundada em torno de 500 AC pelos elimos com o nome de Venere Ericina, para venerar a deusa da fertilidade - e os elimos foram o povo resultante da fusão (quer dizer, transa generalizada) de gregos foragidos de Tróia com os moradores locais, os sicanos (talvez os fulanos troianos os chamassem sicranos, nunca se sabe...).

Pessoalmente suspeito que o o visual encantador da região ajudou a fertilidade dos troianos, porque a cidade é realmente mágica: como fica no alto do Monte Giuliano (ou monte Érix) num precipício de 750 metros na beira do mar, quando cai a noite tudo fica envolto em neblina que permanece até de manhã – as brumas mágicas da sedutora de Érice. E como não tinham muito o que fazer por causa da escuridão e das ruas desertas, creio que os troianos mandavam bala a noite inteira nos sicanos…
Mesmo não acreditando nesta minha “explicação histórica”, o fato é que você, mesmo sozinho, nunca mais vai esquecer de Érice. Localizada perto de Trapani e 110 Km de Palermo, a pequena cidade de 25 mil habitantes é um cenário de cinema com seu aspecto medieval, ruelas, palácios e muralhas; acho que a palavra mais correta para definir Érice é “fascinante”.

Com esta origem, digamos assim erótica, e sua localização perto do então estratégico porto de Trapani, foi natural que Érice tenha gerado disputas seculares entre cartaginenses e romanos – e por cartaginenses entenda-se uma dissidência romana que flertava com bizantinos e visigodos. E, é claro, os árabes também tiraram sua casquinha, conquistando-a em 831 D.C, bem como os normandos, a partir do século XII; isso sem falar de algumas ruínas que especialistas afirmam ser de origem fenícia. Enfim, uma suruba étnica.

A vista é espetacular: pode-se ver Trapani e a região vinífera de Marsala e dizem que em dias claros pode-se ver o Cape Bon na Tunisia, mas não tive esta sorte. A planta da cidade é triangular, com duas portas de entrada (veja o mapa abaixo) e a cidade conserva o traçado medieval.
E dentro deste traçado medieval você vai ver portais, igrejas e castelos como a normanda Igreja Matrice (veja foto abaixo, feita as 9 horas da manhã), o Castello Pepoli, o Palazzo Militari e muitas igrejas como as de San Cattaldo, San Giuliano, San Michelle, del Salvatore e San Martino. No centro da cidade, caso você tenha tempo e interesse de saber mais sobre a história da cidade pode visitar o Museo Comunale A Cordici.

 

Outra grande atração é o Castelo de Venére, segundo dizem, do século XII, construido onde estava originalmente o templo dedicado a Vênus, e que ao longo dos séculos foi caserna militar, sede de governo e residência de alguns poderosos como o Vice-rei don Garzia Toledo em 1561 e Don Carlo D’Aragon em 1576.
Mas o bom mesmo em Érice é caminhar pelas vielas e ruas e ver as fachadas de antigas lojas medievais que foram convertidas em bares convidativos, escritórios de artistas e artesãos, oficinas de arquitetura, residencias de alguns felizardos, ou ainda lojas de cerâmicas ou de tapetes - a cidade tem uma certa tradição na confecção de tapetes.

A cidade tem bons hotéis e come-se muito bem nos restaurantes e bares. Mas se me permite uma sugestão, aproveite para provar os doces e uma das tradições de Érice, os pastéis. Criados por freiras em conventos nos séculos XIV a XVIII, os pastéis, dizem os locais, são conhecidos no mundo todo. Comi uma meia duzia deles na pasticceria Maria Grammatica por 10 euros, uma refeição.
E evidentemente, como Érice está na principal região vinícola da Sicília, sugiro bebericar os vinhos Marsala, fortificados como o conhecido português vinho do Porto ou Sherry, feito com as uvas locais Grillo, Catarratto ou Inzolia. Vinhos “convencionais”, de mesa, também locais, podem ser encontrados facilmente como Malvasia, Moscatos ou o Nero D’Avola, familiar aos brasileiros e geralmente comparado a um bom Syrah.
A Sicília tem muito mais para mostrar, mas este vai ser – pelo menos por enquanto – o penúltimo post da série siciliana, porque o mundo é muito grande e tem muuuuuuita coisa pra conhecer. Praga, por exemplo. Ou Berlim, Annecy, Nova Zeliandia, São Luis do Maranhão. Quem sabe o Equador? Vamos ver o que vai aparecer aqui no In Vino Viajas. Enquanto isso, um brinde, caro leitor. 

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Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:


 
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br - editor deste blog é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias pesquisando roteiros turísticos.