Pesquisar neste blog

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um brinde a Manoel Peterlongo, o criador da champanhe brasileira e da empresa que comemora 100 anos reinventando a alegria de viver


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor ou leitora, comprar vinhos de uma vinícola com mais de 100 anos traz pelo menos duas certezas: 1) não há dúvida de que a empresa teve muito tempo e acumulou experiência suficiente para aprender a fazer bons produtos e 2) a longevidade é um sinal de qualidade, porque ninguém se mantém por tanto tempo num mercado competitivo e personalista como o de vinhos sem conquistar e manter o respeito do consumidor. Pois aqui no Brasil quem tem uma ficha como essa é a Vinícola Peterlongo, de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, a capital dos espumantes do Brasil.

Foi o imigrante italiano Manoel Peterlongo (foto que abre esta matéria) quem desenvolveu e lançou a primeira champanhe do Brasil, em 1915. Para isso ele constituiu uma empresa com o nome de Armando Peterlongo, seu filho mais velho (foto abaixo) que foi, nos anos seguintes, com grande talento, o realizador dos sonhos do pai. A foto acima mostra parte da fábrica nos anos 1940. Naquela época, a champanhe era elaborada somente pelo método Champenoise, desenvolvido pelo abade Don Perignon em Epernay, Champanhe, no século XVII - aliás, a empresa se mantém fiel a este método até hoje. Outra herança deste pioneirismo é que a Peterlongo tem autorização judicial para utilizar o nome “champanhe” – a Denominação de Origem da famosa região francesa - em seus produtos .

E para comemorar seus 100 anos, a vinícola do seu Manoel Peterlongo está reinventando a alegria de viver, beber, harmonizar e se divertir – verbos que combinam perfeitamente com champanhe... Vou resumir esta história centenária. A primeira champanhe brasileira foi desenvolvida em instalações agora históricas que incluem pelo menos duas propriedades que podem ser chamadas de magníficas. Uma delas é a primeira residência da familia Peterlongo, erguida como um castelinho (veja na foto abaixo), onde hoje são realizadas degustações e cursos para visitantes, mas que em breve poderá ser parte de um hotel que está em planejamento.

A outra propriedade é uma cave subterrânea de 10 mil m² construída com belissimas pedras de basalto nos moldes das caves francesas da época, e que representa uma espetacular solução de engenharia ao manter a temperatura ambiente interna baixa e constante para as garrafas em todas as estações do ano. O corredor da foto abaixo mostra um destes ambientes da cave, que hoje é parte do Museu Peterlongo.

Atualmente a cave está sendo utilizada para atividades de turismo. João Ferreira, sommelier e diretor geral me apresentou o museu que lá está instalado, os projetos de adaptação para tornar o local um centro de eventos e festas, e também me mostrou por onde passa um riacho hoje subterrâneo, que ajudava a levar água para o processo produtivo e fazer a refrigeração da cave. Na foto abaixo João Ferreira, de pé, comanda uma degustação harmonizada para mim e para Marcio Carlotto, da Setur de Garibaldi.

Hoje a Peterlongo é uma empresa moderna, com equipamentos atualizados (foto abaixo) e produz e exporta uma ampla linha de champanhes Brut, Extra Brut, Moscatel, brancas e rosés; vinhos frisante; champanhes filtrados Espuma de Prata; refrigerantes e sucos de uva e vinhos tranquilos com uvas Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Riesling e Tannat, varietais e assemblages. A lista de prêmios é enorme e pode ser consultada no site da empresa; o prêmio mais recente do meu preferido, o Presence Moscatel, é uma Medalha de Ouro no Concurso Mundial de Bruxelas, na edição brasileira do ano passado.

Como todas as empresas longevas, a Peterlongo também teve que superar dificuldades apresentadas pela economia; afinal, em 100 anos de vida enfrentou duas guerras mundiais, várias turbulências políticas internacionais e nacionais e inúmeros planos econômicos tropicais - e as crises e variações de mercado provocadas por tudo isso. No fim dos anos 1990 a empresa estava concordatária e foi adquirida pelo empresário Luiz Carlos Sella (na foto abaixo recebendo um prêmio), que já tinha negócios na serra gaúcha. Como ele mesmo me disse, a idéia era realizar os aportes de capital, inovação e gestão necessários para colocar a Peterlongo novamente no caminho da liucratividade, e então vendê-la. 

Pois durante 15 anos os tais investimentos foram feitos, uma nova equipe gestora foi contratada e sob o comando do próprio Sella e do executivo João Ferreira, oriundo da competitiva indústria automotiva, a empresa voltou ao azul em 2014. Mas como é bastante comum no mundo do vinho, o investidor se apaixonou pela atividade e em vez de vender a Peterlongo, decidiu ampliar os investimentos. O relacionamento com a comunidade, que foi abandonado nos duros tempos de crise está sendo retomado e em breve vai ser lançado um livro com a memória dos 100 anos da empresa, o que, segundo Ferreira, é de enorme significado e importância para a Peterlongo. Na foto abaixo, rótulos históricos da empresa.

Como a Peterlongo recebe muitos turistas, muitos planos começam por aí. A antiga cave de pedras de basalto deve se tornar um centro de eventos para casamentos e festas, cursos, degustação e varejo. O atual museu vai ser ampliado e modernizado. O castelo residencial da familia deve ser parte de um hotel a ser construído. E nos jardins da empresa, ao lado de um vinhedo que costuma ser visitado pelos turistas (veja a foto abaixo), será implantado um espaço para projeções de cinema ao ar livre, mais um ato de memória a Armando Peterlongo que fazia filmes de interesse comunitário que estão sendo recuperados.

Esta é a parte visivel das mudanças, mas na área de produção também estão sendo realizados investimentos que ainda não estão sendo revelados. Mas como me disse João Ferreira, “Vamos honrar a memória dos pioneiros Manuel e Armando Peterlongo com ideias, produtos e serviços de qualidade superior”. Tenho certeza de que isso vai acontecer, meus caros João e Sella, porque somente com qualidade superior uma empresa produtora de champanhes poderá continuar a ser competitiva local e globalmente. Faço um brinde a todos do passado e do futuro desta empresa gaúcha e brasileira da qual todos devemos nos orgulhar. E eu quero voltar na Peterlongo para ver todos estes projetos realizados.
 
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e já viu garrafas de champanhe Peterlongo em muitos eventos no Brasil e exterior, nos ultimos 40 anos.




quinta-feira, 21 de julho de 2016

In Vino Viajas publica 400 reportagens sobre cultura, turismo e vinhos e ultrapassa 20.000 acessos por mês, com leitores de 134 países!


Por Rogerio Ruschel (*)
Querido leitora ou leitor: agora sou um storyteller com 400 historias publicadas! Aqui no “In Vino Viajas” já propus brindes a centenas de pessoas, comunidades e organizações que vêm ajudando a tornar a vida mais agradável com atitudes sociais, culturais e ambientais importantes para as pessoas, o patrimônio e  o planeta. Por isso peço licença para propor um brinde a mim mesmo como editor do “In Vino Viajas” porque estou comemorando este mês a publicação de 400 reportagens em 4 anos. Tim-tim! Um pequeno momento de orgulho no meio de 400 historias pode ser perdoável, não?

Em 29 de maio de 2012 publiquei aqui minha primeira matéria, uma reportagem sobre os sabores da Borgonha e sua linda capital, a cidade universitária de Dijon (acima, visitando uma videira em Côte de Baune). Desde este primeiro dia não abri mão do compromisso de respeitar a inteligência do leitor fazendo jornalismo com compromisso a partir da minha atividade como repórter de turismo e também sobre o que sempre gostei mas nunca tinha escrito: sobre a cultura do vinho. Esta minha primeira matéria de maio de 2012 teve apenas 16 acessos, míseros 16 acessos; hoje a média de acessos por reportagem está acima de 1.200 – veja abaixo o ranking dos 10 mais lidos em 21.07/2016.

Em 2015 fui convidado a fazer palestras na Espanha, Portugal e Uruguai porque “In Vino Viajas” foi considerado um exemplo de storyteller de sucesso no ramo do vinho. Eu não sabia disso e pra ser sincero, nem sabia o que era storyteller. Pois neste mês de junho de 2016 publiquei a reportagem de número 400, uma típica storytelling: uma entrevista apoiando a campanha de uma socióloga para o reconhecimento da Ribeira Sacra, região espanhola com viticultura heróica e paisagens impressionantes, como um Patrimônio da Humanidade da Unesco, ao lado de outras nove regiões do planeta (http://migre.me/uoZlK).


Pois com esta reportagem e outras duas publicadas neste mesmo mes de junho – stories sobre a inauguração da Cité du Vin, o maior museu do vinho do mundo em Bordeaux, França (http://migre.me/uppvg), e o sucesso do Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (http://migre.me/uppyY) - “In Vino Viajas” bateu outro recorde: ultrapassou a faixa de 20.000 acessos em um mês. Pode parecer pouco, meu caro leitor ou leitora, mas 20 mil pessoas lendo sobre a defesa de um patrimônio cultural, a inauguração de um museu e o sucesso de um plano de sustentabilidade é muita gente! Até porque denúncias, sexo, sacanagens e besteiras é que são os assuntos que atraem a atenção dos leitores e tem grande acesso na internet. Fazendo jornalismo com compromisso “In Vino Viajas” está atraindo mais de 20 mil leitores por mes, é o oitavo blogue de vinhos mais acessado do Brasil e mantém um vetor de crescimento permanente desde 2012 – veja abaixo.


Muitos blogueiros divulgam que tem milhares de acessos e ganham milhões de reais com isso, mas ninguém comprova. Tenho leitores em 134 paises e posso comprovar. E posso comprovar também o volume de acessos: há dois anos publico do lado direito da página Home uma coluna com um software que registra os acessos online ao blogue, no qual você pode ver a qualquer momento exatamente quem está acessando e da onde. Veja abaixo um exemplo.

 


E por falar em acessos, entre 19/05/2015 e 21/07/2016  (387 dias) tive uma média diária de 5.130 acessos nas redes sociais, segundo o Google+ - veja os registros abaixo. Tudo documentado.



Apresento histórias verídicas, envolvendo seres humanos de verdade. E acho que isso é que tem conquistado o respeito de vinícolas, distribuidores, importadores, gestores de turismo e de pessoas que gostam de vinhos, de cultura, de viagens e de qualidade. Como com a familia da Dona Odete (foto abaixo), historia publicada em julho (http://migre.me/uprAz). Quero repetir aqui o que de fato me move e que escrevi pela primeira vez em junho de 2013, quando publiquei a matéria de número 100: “Se Deus me permite escrever aqui no “In Vino Viajas”, quero agradecer a você que me honra com a sua leitura, que me incentiva compartilhando com seus amigos, e me faz sentir mais humano e útil trazendo momentos de beleza, alegria e cultura; é para você que visito vinhedos, praças, campos, adegas, monumentos, ruas e calçadas pelo mundo.” 


E para encerrar, repito o que publiquei em 2014, quando comemorei 200 reportagens publicadas no “In Vino Viajas”: meu querido leitor ou leitora, tenha a certeza de que todos os dias, nos textos e fotos que você vai encontrar aqui, estão a alegria de viver de um jornalista curioso e o agradecimento profundo de um ser humano a todos que o permitem ser feliz. Faço um brinde a isso: tim-tim!
(*) Rogerio Ruschel edita este blogue desde maio de 2012

 


terça-feira, 12 de julho de 2016

Conheça a Dona Odete, chefe de uma família de mulheres agricultoras que superou desafios e hoje encanta turistas na Estrada do Sabor, Garibaldi, na serra gaúcha


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor ou leitora, vou contar uma historia que começa triste mas tem um final muito feliz – a historia da dona Odete Bettú Lazzari (foto acima) e sua corajosa família de mulheres. Era uma vez uma pequena propriedade na Linha São Jorge, uma comunidade no interior do município de Garibaldi, vizinha do Vale dos Vinhedos, na serra gaúcha, na qual vivia uma família de agricultores de origem italiana que vivia da produção e venda de uvas e leite. A região era linda (foto abaixo) e todos vivivam felizes.

Mas em 1997 aconteceu um problema: Danilo, o chefe da familia, faleceu e o mundo desabou nos ombros da viúva Odete que ficou com quatro filhas para sustentar. Numa comunidade como essa as mulheres são quase sempre coadjuvantes dos homens da casa, e ao longo de dois anos a viúva teve que vender as vacas leiteiras, os tratores, arrendar os parreirais e até pedir dinheiro emprestado para parentes para sustentar a família. Até a natureza parecia estar pesada, contra as mulheres da familia Lazzari.

Mas em 29 de novembro de 2001 o município de Bento Gonçalves, o Sebrae e a Atuaserra (organização privada) começaram a implantar a Estrada do Sabor, uma proposta para desenvolver o turismo rural na região e assim oferecer uma oportunidade de geração de emprego e renda para famílias rurais, com foco na agricultura e a agroindústria. Parecia que o céu começava a se abrir para a familia Lazzari (foto abaixo).
Além disso ao mesmo tempo se pensava em internalizar o turismo, isto é, aproveitar o fluxo de turistas que já visitavam as vinícolas grandes na cidade e outras atrações urbanas da região, o que de fato aconteceu. Hoje, quinze anos depois, o roteiro é um grande sucesso de crítica e público, muito bem organizado e sinalizado – e por isso mesmo muito frequentado.

Dona Odete Bettú Lazzari - hoje com 66 anos, abaixo – aceitou o convite para participar do projeto, imaginando poder gerar renda vendendo aquilo que ela e suas filhas sabiam fazer de melhor: refeições deliciosas com receitas secretas da família. 

Nos anos seguintes a vida foi uma dureza. As cinco mulheres (duas das filhas ainda adolescentes) enfrentaram todos os tipos de desafios: a falta de crédito oficial, o preconceito comunitário, a desconfiança dos vizinhos, a falta de estudos e a inexperiência em receber turistas e gerir um negócio. Dona Odete inventou a Osteria della Colombina que um dia seria um restaurante e começou oferecendo pique-niques no jardim da propriedade porque não tinha louças e toalhas; estes utensilios foram emprestadas pelo Hotel Casacurta e a secretária de Turismo e Cultura de Garibaldi, Ivane Favero, lembra que levou as louças para a casa da dona Odete em seu carro.

Pois as cinco mulheres venceram tudo isso e continuam vencendo: as filhas Rosangela, Raquel e Roselaine já estão casadas, formadas e tem empregos estáveis que ajudam o negócio da familia, e a filha mais moça, Raissa, com 27 anos - uma excepcional relações públicas formada em Enoturismo - é quem está mais presente no dia-a-dia da Osteria della Colombina ao lado da mãe. Rosangela, a filha mais velha, é técnica em agropecuária com habilitação em agro-indústria e estudou viticultura em Verona, Itália. E é uma das maiores incentivadoras da recuperação das receitas históricas da familia. Nas fotos abaixo Odete com duas das filhas e uma mostra dos produtos locais.


Pois é, meu caro leitor ou leitora, quinze anos se passaram, e este não é o final, mas já é feliz. Hoje a Osteria della Colombina é reconhecida no Brasil e exterior e serve de exemplo em programas de Turismo Rural na Agricultura Familiar. Dona Odete e suas filhas recebem grupos de até 35 pessoas que se emocionam com a experiência criativa, simpática e autêntica oferecida na Osteria, como degustar refeições típicas de imigrantes italianos (foto acima) em ambiente único, numa mesa comprida, no porão da casa da família, que ainda tem um piso de “chão batido“ (veja abaixo).

Só para você ter uma ideia dos dotes culináros da familia, anote: como minha visita foi individual e fora do horário de almoço, dona Odete teve que “improvisar”, cozinhando “algo simples”. Este “algo simples” da dona Odete começou com uma polenta brustolada na chapa como entrada (foto abaixo), acompanhada de alguns embutidos, capeletti in brodo e um risotto fantástico.

O cardápio official servido para os visitantes (R$ 60,00 com vinho da casa) inclui estes pratos acima e mais: carne lessa – carne de galinha caipira e gado cozidas na água com temperos não revelados.
Na continuação tem salada orgânica e deliciosa, uma porção generosa de nhoque de tres queijos com salaminho defumado; uma galinha ao molho vermelho de tomate da casa; carne de panela assada a moda antiga com bacon e salame – daquelas que tem sabor de panela realmente antiga - e uma fortaia, um tipo de omelete colonial italiano – veja na foto abaixo. 

E mais: dona Odete oferece aos visitantes uma sobremesa natural execepcional: muitos doces, geleias e compotas de frutas e sorvete de limão siciliano feito em casa. Meu caro leitor ou leitora, é simplesmente divino! E ainda existem receitas antigas resgatadas pela família, como a moranga recheada (foto abaixo), que fazem sucesso até mesmo além mar e que não pude conhecer! 

A familia oferece visitação à propriedade com trilhas entre pomares e parreirais, sempre no meio de uma deslumbrante paisagem; você se sente até mais leve depois do passeio! A familia mantém um pequeno e intimista museu com objetos antigos como utensílios domésticos e agrícolas, peças religiosas e fotografias, em uma réplica de casa de madeira da colonização italiana – veja nesta foto abaixo.

Como bons empreendedores a familia Bettú Lazzari já está “exportando” produtos como vinhos familiares (com uvas Montepulciano, Corvina e Malbec, ótimos, por sinal), tempero, doces de frutas como uvas, citricos, ameixas, pessegos, peras, figos, marmelos - em pasta, geleias, compotas e conservas, tudo feito com matéria prima orgânica produzida em casa – e certificada. Veja foto abaixo uma amostra. Dona Odete me disse que “aqui tudo saiu de nossa cabeça, pensamos coletivamente, nada é feito sozinho porque somos de uma familia de Cremona, da Itália” – com forte sotaque de quem sempre falou o italiano de Veneto, hoje chamado de talian.


Mas as cinco mulheres tem outra magia de encantamento: convidam o visitante a participar da "Oficina Mãos na Massa", a oportunidade do turista preparar sua própria “Colombina”, uma pombinha feita de massa de pão que repousa em uma embalagem tipo caixa de fósforo que as familias italianas faziam desde o sempre, para envolver as crianças na produção do pão nas familias. Tem gente que chora – e com razão, porque é um gesto simples mas cheio de significados de momentos que nnao conseguimos ter nas cidades grandes. Dona Oete me confessa: “Lidamos com o emocional das pessoas, os visitantes passeiam, fotografam, conversam, ouvem historias, ficam de duas a tres horas aqui, se emocionam, muitos choram escondido...”.
Pois é: em 15 de junho de 2016 a Osteria della Colombina completou 15 anos de história, data comemorada com o lançamento de um passeio autoguiado intitulado “Os Caminhos da Colombina” – veja abaixo a placa criada pela designer Rosana Marina. 

O roteiro, que sozinho já justifica uma visita a a Osteria della Colombina, oferece passeios entre pomares, vinhedos, hortas certificadas orgânicas, animais domésticos, belas paisagens, agroindústria, uma pequena vinícola de sonho e um museu familiar. A ideia, como me disse a dona Odete, é que o visitante se sinta em harmonia com este lugar como nós nos sentimos”.
Nós nos sentimos, dona Odete, eu me senti de verdade. A Osteria della Colombina que foi palco de uma tragédia familia, resisitiu e continua sendo um lar - só que agora para muito mais pessoas do que as cinco mulheres corajosas da familia Bettú Lazzari. Na foto abaixo eu recebo a energia positiva e tenho o privilégio de aprender sobre persistência, união e qualidade de ida com dona Odete e duas de suas valorosas filhas.

É necessário agendar a visita para viver esta emoção. Mais informações podem ser obtidas no fone (54) 3464 7755, em http://www.estradadosabor.com.br/odete_bettu ou pelo e-mail

-->
Para saber mais sobre turismo em Garibaldi acesse http://www.turismogaribaldi.com.br/
Em Garibaldi sugiro se hospedar no Casacurta Hotel - http://www.hotelcasacurta.com.br/

(*) Rogerio Ruschel é editor de in Vino Viajas em São Paulo, mas quando pode vai para a serra gaúcha para poder viver a verdadeira vida de quem sabe viver. 





sexta-feira, 8 de julho de 2016

Uma conversa de amigos sobre os dois Encontros Franco-Brasileiros do Vinho Natural, vinhos natureba e os desafios para os produtores independentes


Por Rogerio Ruschel (*)

 

Meu prezado leitor ou leitora, a responsabilidade de um jornalista é registrar o que está acontecendo no seu espaço e seu tempo. Como sou jornalista e não escritor de posts, vou registrar uma mobilização muito positiva de produtores indepedentes do Brasil e da França que já organizaram dois Encontros Franco-Brasileiros do Vinho Natural, em 2015 e 2016. Eles são pequenos e em certo sentido, undergrounds – alguns dos brasileiros poderão estar, digamos assim, não atendendo 100% da imensa e voraz legislação brasileira… Abaixo, a lista de participantes brasileiros no evento de Paris.

 


Em março de 2015 publiquei uma reportagem sobre o Primeiro Encontro Franco-Brasileiro do Vinho Natural que foi realizado no Brasil - veja aqui: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2015/03/brasil-sedia-o-primeiro-encontro-franco.html. Veja abaixo uma foto dos participantes. Pois em maio de 2016 foi realizado o Segundo Encontro Franco-Brasileiro do Vinho Natural (EFBVN) na França (Paris) e para que os leitores de In Vino Viajas permaneçam bem informados, entrevistei dois dos participantes: o brasileiro Marco Danielle, do Atelier Tormentas, de Caxias do Sul e o francês Philippe Herbert, que teve a ajuda de Alain Inglês, da Gavinho Importadora, do Rio de Janeiro, um dos mentores dos Encontros. Veja as respostas a seguir.

In Vino Viajas - Você participou dos dois Encontros; qual o mais importante? Comente sobre a programação do evento.

Philippe Herbert & Alain Inglês  – “Os dois EFBVN foram muito importantes e dou destaque ao primeiro pois além de ter sido mais complexo na parte de planejamento e organização, foi o estopim de tudo; sem o sucesso alcançado com ele não haveria oportunidade para realizar o segundo na França. O Primeiro EFBVN foi realizado em 2015 no Rio de Janeiro e em São Paulo, o segundo em 2016 em Paris.
Os dois foram realizado graças às seguintes ações:
(1) A iniciativa de Philippe Herbert em contatar e convencer os produtores franceses a vir ao Brasil e participar dos dois eventos e o mesmo no Brasil com os produtores brasileiros através de Alain Ingles; (Abaixo foto do evento no Brasil)

(2) Aos produtores franceses e brasileiros que "compraram" a ideia, cederam suas amostras e vieram ao evento por conta própria (hospedagem, traslados e alimentação ficaram por conta da organização do evento);
(3) Pelo evento no Brasil, o primeiro dia foi no restaurante Aprazivel no Rio de Janeiro e o segundo dia em uma galeria de arte em São Paulo. Isso aconteceu graças ao investimento do Restaurante Aprazível: sem o apoio deles e equipe nada teria acontecido. A Importadora Gavinho, de Alain Inglês, dividiu o prejuízo da primeira edição junto com o restaurante Aprazível, que fez todo o investimento inicial. 
--> (Abaixo foto do evento no Brasil).

O evento na França teve seu primeiro dia no restaurante Le Chateaubriand e segundo dia na loja Divvino, no Marais. Os produtores franceses e brasileiros apresentaram seus vinhos para mais de 300 participantes, a imensa maioria composta por profissionais do setor. Foi um encontro fantástico em que todos os envolvidos se doaram e houve quase nenhuma troca de dinheiro, apenas muita generosidade de todos os envolvidos e muitas garrafas de vinho.
(4) A participação essencial do Alain Ingles que ficou responsável pela logística receptiva dos produtores no Brasil e do processo de importação formal dos vinhos servidos nos dias de evento, pela produção dos eventos em si e negociação de parcerias.” (Abaixo foto do evento no Brasil).

Marco Danielle - “Creio que o mais interessante para o vinho brasileiro foi o 2º Encontro, o de Paris, pois proporcionou uma oportunidade jamais antes imaginada, de sentir a reação dos franceses aos nossos vinhos artesanais produzidos da forma mais natural possível. É importante lembrar que, além representarem o segmento mais difícil e exigente do mercado (os conhecedores de vinhos naturais), os cerca de 300 visitantes da feira eram, em sua grande parte, profissionais do setor: cavistas, sommeliers, chefes de cozinha, etc. Então fomos avaliados à francesa, sem concessões ou parcialidade, por wine geeks desse complexo contexto que encerra o universo dos vinhos naturais. (Abaixo foto do evento no Brasil).

Foi interessante presenciar a surpresa desses profissionais com a vinicultura de uma nação que muitos deles sequer sabiam que produzia vinhos. Foi interessante estrategicamente para o vinhos brasileiro, pois muitos formadores de opinião franceses descobriram que não apenas pode-se fazer vinho no Brasil, mas pode-se fazer bom vinho, e, como se não bastasse, de forma natural. Mas o 1º Encontro, no Brasil, foi o mais importante para o vinho brasileiro, por várias razões. Primeiro porque houve uma série de conferências dos vinhateiros franceses, oportunidade de aprendermos a ver a vinicultura sob um diferente prisma. Filmei essas conferências e um dia espero ter tempo para editar e legendar esse documentário, de forma que os colegas brasileiros possam rever os assuntos tratados. Fiz a tradução simultânea de algumas dessas conferências, que foram muito produtivas. (Na foto abaixo Lizete Vicari, durante o evento no Brasil).

O segundo aspecto historicamente importante para o vinho brasileiro foi a presença de Pierre Overnoy mostrando seus vinhos entre nós, o que deixou uma jornalista inglesa surpresa, pois sabe-se como é raro Overnoy viajar ou aceitar qualquer convite para feiras. Sua presença nos dois encontros foi uma prova de reconhecimento, um endosso à seriedade e empenho com que esses pequenos produtores artesanais brasileiros estão lutando contra toda a sorte de obstáculos burocráticos, criados em série para impedir a existência de uma vinicultura artesanal brasileira." Abaixo foto do grupo no evento de Paris.

In Vino Viajas - Qual a avaliação dos brasileiros sobre os vinhos franceses? E qual sua avaliação dos vinhos brasileiros?

Philippe Herbert & Alain Inglês – "Os vinhos franceses são considerados os melhores do mundo e os brasileiros tem noção de que há muito a aprender com a França, especialmente no que se refere ao vinho natural, o trato da vinha sem defensivos agrícolas sintéticos, técnicas de vinificação, etc. Os brasileiros que fazem vinho natural estão vivendo hoje o que os franceses viveram há 30/40 anos atrás, há muito o que aprender. Os vinhos brasileiros apresentados têm atraído não só a curiosidade, mas também ter sido uma feliz descoberta para todos os amadores franceses e profissionais. Há ainda algum caminho antes de encontrar as melhores características típicas de solo brasileiro e as variedades mais representativas. Mas os vinhos apresentados mostraram real gosto potencial. " (Abaixo foto do evento na França).

In Vino Viajas - Qual a avaliação dos franceses sobre os vinhos brasileiros? E qual sua avaliação dos vinhos franceses?

Marco Danielle – “Minha experiência se resume ao nosso espaço na feira, ao nosso estande. Só posso relatar o que presenciamos pessoalmente, pois o evento em Paris foi muito agitado e não permitiu qualquer interação com os demais expositores, franceses ou brasileiros. Uma das falhas dos dois encontros foi a quase impossibilidade de provar vinhos, quer dos franceses, quer dos brasileiros presentes no encontro. Uma vez abertas as portas, perde-se a voz de tanto falar e as energias logo se esvaem na tentativa de servir e responder a uma média de 4 a 6 pessoas paradas à frente do estande, perguntando ao mesmo tempo. Pode-se no máximo provar alguma coisa do estande vizinho. Uma sugestão para o 3º encontro seria abrir-se o salão uma hora antes apenas para os expositores visitarem todos os colegas, e provarem todos os vinhos. Quanto aos visitantes, em si, nossa experiência pessoal foi positiva. Presenciamos profissionais franceses e de diversas nacionalidades surpresos com a acidez de nossos vinhos, tão européia e tão rara no Novo Mundo. (Abaixo foto do evento na França).

Muitos elogios aos nossos dois pinots apresentados no salão, mas muita heterogeneidade nas formas de perceber os vinhos, e uma enorme oscilação entre as preferencias por um ou por outro - o que é ótimo. Contudo, a interferência da moda, em Paris, é algo que me aborrece, pois sou avesso a todo e qualquer culto à moda. Vejo que, no momento, a moda são os vinhos naturais radicais, turvos, com aspecto de suco de fruta. Qualquer traço clássico, notadamente a presença de madeira, por mais remota que seja, é veementemente proscrito. Nada de madeira, extração suave, fruta viva, são alguns dos “últimos gritos” dos quais não fazemos parte, aqui no atelier, pois sou bastante afeito ao caráter clássico, prezo muito a limpidez, e preciso da madeira para amenizar a rusticidade excessiva de alguns dos meus vinhos.”

In Vino Viajas - É possivel comparar os vinhos naturais brasileiros e franceses?

Philippe Herbert & Alain Inglês – “No resultado final, não são diretamente comparáveis. Mas há semelhanças devido à características do processo de vinificação com mínima intervenção, leveduras nativas e sem adição de SO2. A elegância dos vinhos franceses é ímpar, mas os brasileiros também são muito bons, possuem características próprias que lhe conferem identidade própria e estão no caminho certo.”

Marco Danielle – “Nem sempre os vinhos franceses são melhores do que os brasileiros, nem em todas as safras, nem em todas as castas. O Fulvia Pinot Noir tem uma história imensa de comparação às cegas com grandes borgonhas - tudo isso vastamente documentado pela imprensa. Nosso Franc 2010 fez enorme sucesso, foi parar na carta do Pearl&Ash de NYC, Philippe Pacalet o comparou a um bom Bourgueil, mas a safra 2015, apresentada em, Paris, não foi uma “boa” safra em termos de concentração, o vinho não tem a estrutura dos anteriores, e por isso mesmo é meu preferido, lembra um pinot noir ou um sangiovese leve, em termos de estrutura. É complexo, é sensual, beira o sulfito zero, mas é diferente de um Franc AOC estruturado francês, e isso os franceses às vezes têm dificuldade em entender. A matriz de casta x AOC é muito inculcada no espírito francês, não dão muita margem à originalidade quando o assunto é casta. Os fãs dos vinhos naturais são mais permissivos nesse sentido, mas nem todos os visitantes da feira eram naturebas radicais, então senti algum estranhamento sobre nosso Franc 2015. Adoro esse vinho, mas ele quebra um pouco o compromisso com as expectativas da casta.”
(Abaixo foto do evento na França).

In Vino Viajas - Quais os benefícios potenciais dos produtores participantes?

Philippe Herbert – "Dentre os brasileiros aprender, encurtar o caminho do aprendizado e aproveitar a evidência de estar ao lado de produtores renomados. Dos franceses pela divulgação, festa e reverência a Pierre Overnoy que participou das duas edições."

Marco Danielle “Expor é uma maneira de fazer-se conhecer, e expor ao lado de produtores de projeção internacional é uma referência a mais.”

In Vino Viajas - Os participantes pensam em realizar algum tipo de operação conjunta, seja técnica, de mercado ou institucional?

Philippe Herbert –Pelo momento não que seja do meu conhecimento, além das visitas já realizadas pelos produtores brasileiros aos franceses nesses dois anos. O diálogo está agora estabelecido, os produtores brasileiros pode fazer qualquer pergunta para os produtores franceses.”

Marco Danielle “No caso dos brasileiros passamos um ano entre reuniões com conselheiros cooperativistas, fiscais e contábeis, atas e redação de Contrato Social para a formação de uma Cooperativa, mas infelizmente o país não parece ter interesse na existência de pequenas vinícolas, ou de produtores  e vinhos artesanais, e a Cooperativa mostrou-se inviável. Cada um deverá batalhar por conta própria, e fora o Encontro e as Feiras, não existe nenhuma ação conjunta. Os franceses estão abertos a compartilhar suas experiências (que não são pequenas) conosco, e isso é muito importante para uma vinicultura jovem como a nossa.” (Abaixo foto do evento na França).
In Vino Viajas – Marco Danielle, na sua opinião o que já temos de bom e de maduro, e o que ainda temos que melhorar em nossos vinhos naturais?

Marco Danielle "Só posso responder pelos meus vinhos, do Atelier Tormentas, e nosso estilo é muito pontual, muito específico, com inspiração na Borgonha para os pinots, e no Vale do Loire para o resto dos vinhos. Não conheço suficientemente bem os vinhos dos colegas brasileiros, mas acho que o pouco que provei está mais em sintonia com o movimento radical moderno francês que os nossos. Temos um estilo mais antigo, mais clássico, na verdade é o estilo que eu adoro até hoje. Talvez um dia mude, mas não é algo que eu faça visando determinado nicho de apreciadores. É meu gosto pessoal, que acaba indo de encontro ao gosto de um certo segmento de publico. A Vanessa é enóloga e pretende trilhar um caminho próprio, ela gosta de coisas mais loucas, mais livres. Dou a maior força para que elabore seus próprios vinhos aqui no Atelier, vinhos que levem sua assinatura, e que sejam feitos dentro dos mesmos preceitos de pureza e honestidade.”

In Vino Viajas - Quando e onde será realizado o Terceiro Encontro?

Philippe Herbert & Alain Inglês “Só Deus sabe! Mas se ocorrer uma terceira edição será decorrente da iniciativa dos próprios produtores brasileiros e franceses, e provavelmente em 2017 no Sul do Brasil que é a principal região vinícola do Brasil.”

Marco Danielle “Sugeri Gramado, e já tenho o parecer entusiasmado e positivo de meu grande amigo Umberto Beltramea, gerente geral do  Hotel Saint Andrews, interessado em acolher o evento. O St Andrews é um dos dois hoteis brasileiros 6 estrelas detentores da chancela Relais & Châteaux, e dispões de recursos financeiros suficientes para patrocinar o desafio. Apresentei a idéia ao grupo, mas até agora não obtive qualquer resposta. Como vinho brasileiro é sinônimo de Serra Gaúcha, e Gramado é símbolo de qualidade de vida, acreditei ser a idéia pertinente.“

Meu prezado leitor ou leitora, não importa onde vai ser realizado o Terceiro Encontro; In Vino Viajas estará acompanhando e divulgando. Um brinde aos vinhos naturais e seus valentes produtores independentes: tim-tim!




(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas baseado em São Paulo, mas gosta de vinhos franceses e brasileiros – e portugueses, e italianos, e alemães, e eslovenos e chilenos e espanhóis…